Um gajo passa o infantário e a primária a ser o Don Juan da zona, a papar todas as meninas lá da escola, para chegar à idade adulta e ter que se conformar com aquela que tinha o ranho no nariz todos os dias, aquela pita que tirava os macacos e colava debaixo da secretária, ou aquela que aos quinze anos ainda não tirava o bigode – ou, como as mulheres gostam de lhe chamar, o “buço” – porque os pais tinham medo que endurecesse.
Não foi essa que me calhou na rifa, mas a verdade é que ainda estou a tentar apanhar cada pormenor para perceber, de vez, se ela é deficiente ou não. Mas atenção, caso ela esteja a ver… eu amo-a! Até porque não quero que ela chegue a casa e estique o remo atrás para me dar um estaladão, porque «já chega de estar sempre a tirar-lhe a auto-estima».
Bem, vocês vão perceber o que eu estou a dizer. Sendo assim, aqui vão as 8 coisas mais hilariantes da minha namorada:
1. Onomatopeias. Sabem aquele caniche irritante que não para de ladrar desde as dez da manhã às nove da noite? E aquele gato que quer a atenção toda para ele vinte e quatro horas por dia? Claro que não me posso esquecer a vaquinha, o porco, o trator, o foguete, a sirene da ambulância… Sim, a minha namorada é essa festa toda, assim que uma pequena energia lhe assola a alma. Ela acorda a fazer barulhos e adormece a fazer barulhos. Basta ela não estar quase a fechar o olho esquerdo de cansaço, para trazer até mim uma festa dos sons de fazer inveja à Disneylândia! E claro que tinha de, não raras vezes, escolher as horas em que eu estou quase a fechar o olho direito para o fazer.
2. “Estás farto de me aturar?” Como qualquer homem, eu acordo de mau humor. Todos os dias. Não quero mimos e não quero ser feliz, nem quero saltar, nem quero sorrir. Não nas primeiras horas da manhã. Mas se ela diz uma piada e eu não me rio, ou se não a ponho em cima de um pedestal com setas reluzentes a piscar e a apontar para ela, com uma frase inspiradora tipo “esta é a miúda mais incrível do século”, só pode haver uma única razão. Estou farto de a aturar. Só pode ser isso. NÃO É! Mulheres deste mundo, percebam que só há uma altura em que vocês podem, de facto, ter a certeza que estamos fartos de vos aturar: quando vamos juntos ao shopping.
3. “Estou gorda? Diz a verdade!” É nesta altura que eu me sinto tal e qual o Musafa do Rei Leão, quando está a um toque na pata de ir desta para melhor. E eu, ainda a lutar pela vida, respondo: “Não estás gorda!”. Mas ela retalia: “Mas não vês celulite nenhuma? Não estou um bocadinho mais inchada do que a semana passada?”. E eis senão quando, já a arrepender-me do que vou dizer, as minhas cordas vocais soltam um tímido “Estás um bocadinho mais gorduchinha que há uns tempos, sim”. Ok, é agora. O Scar que existe dentro dela apodera-se do seu corpo e toca-me na pata. Morri. Hoje não há mais confianças para ninguém. A partir de agora e até ela se esquecer, a nossa relação acabou. Deita-se na cama. Chora. Chora porque está gordíssima, chora porque na sua cabeça eu disse que ela é algo entre um cachalote, uma máquina de fazer algodão doce e uma piscina feita de gordura. Resta-me dizer “Não era bem isso que eu queria dizer…” e abraçá-la. Mas não com muita força, para não lhe sair de rajada um “ESTÁS A TOCAR-ME PARA QUÊ? PARA SENTIR A MINHA GORDURA?”
4. Chorar por tudo e por nada. E esta vem de caminho. Não sei como é com as pessoas normais, mas a minha namorada chora porque existe. Chora porque é gorda, chora porque a roupa lhe fica mal, porqueaquela camisola amarela não lhe está a agradar e o amarelo não a favorece, porque não consegue estudar tanta coisa em tão pouco, chora porque eu não lhe dou atenção, ou porque o gato que estava a passear na rua era tão lindo. Anseio pelo dia em que saia a milagrosa notícia: “Estudos da Universidade de INSERIR UM ESTADO QUALQUER AMERICANO revelam que há mulheres que têm tensão pré-menstrual – vulgarmente conhecida por TPM – durante todo o mês. Isso acontece consigo? Então fique a saber que agora já existe uma cura!”. Confesso que acabei de soltar uma pequena lágrima no canto do olho, só de imaginar o orgulho que viveria nesse momento.
5. “É só mais uma vez!” Nunca vos aconteceu estarem descansados a subir as escadas e serem surpreendidos com um “dedunuânus”? Tentei disfarçar a palavra, mas acho que toda a gente entendeu. A minha namorada tem uma mistura entre a epilepsia e a dedomania, porque ela faz-me essas surpresas constantemente. E eu digo “Não, não… Não se faz isso, assim a Joana é feia!” e ela, qual criança a frequentar o 1º ciclo, faz de novo. Eu ralho com ela novamente. E ela diz-me “É só mais uma vez!” NÃO. LÊ OS MEUS LÁBIOS. N-Ã-O… Q-U-E-R-O! E, para além disso, nunca é só mais uma vez. Aliás, é mais uma vez para ela mas não para mim. Quando eu faço alguma coisa que ela não gosta, a última vez é a última vez. Quando é ela, é só mais uma vez. E é que não é só mais uma vez com isso, nem com as massagens, nem com nada. Nunca é só mais uma vez, é sempre mais dez vezes. E eu continuo a não gos… AU!!!
6. Conversas a dormir. Ah, como é bom ter uma conversa séria com a tua namorada e, de repente, reparares que ela adormeceu! Mas isso é demasiado cliché para esta miúda, então ela arranjou um esquema qualquer no inconsciente dela, que é nada mais nada menos do que continuar a conversa… mas enquanto dorme! “Sabes perfeitamente que gosto muito de ti e nem gosto que duvides disso!” *pausa dramática até ela me responder* “Mas há uma grande quantidade das bases”. Ok, adormeceu. Ontem, estávamos deitados, eu estava a ver uma série e ela arrochou. Sim, ela literalmente entrou no submundo dos mortos-vivos, o que já era de esperar porque ela nunca vê uma série até ao fim. Mas eu estava descansado, quando de repente ela se levanta de olhos fechados e diz “Tu és fantástico, este país é demasiado pequeno para ti!”. Gostei. Aplaudi, esbocei um sorriso e perguntei: “O que queres dizer com isso?”. O resto da conversa foi: “Que vais!” / “Para onde?” / “Mais para ali” / “Mas porquê?” / “Porque não gostas” / “De quê?” / “Oh Tomás, daqui”. Entretanto balbuciou mais uma das suas enternecedoras onomatopeias, virou-se para o outro lado e não falou mais. Fim.
7. "Por que é que nunca fazes as coisas que eu quero…” se eu faço sempre as coisas que tu queres? Sim, sim, já sei, sempre a mesma lengalenga. Aquela cena típica de mulheres de nos cobrarem os pequenos-almoços, as massagens, o próprio facto de concordarem connosco… Ora, eu que trabalho na empresa PREGUIÇA, no posto de PREGUIÇOSO, muitas vezes não me apetece cozinhar o Filet de mignon em cama de legumes com raspas de chocolate e un petit peu de frutos secos de Madagáscar. Ao invés disso, apetece-me cozinhar um bife e ovos estrelados, até porque sou sempre eu a cozinhar – sim, se não fosse eu, na vida da minha namorada havia dois pratos do dia para o jantar: cereais ou leite com café e torradas. Mas qualquer pequena coisa que eu não faça por ela, é porque eu nunca faço nada do que ela quer. Nunca. E ela faz sempre tudo por mim. Pobre criatura esta santa. Ah, p.s.: Dos mesmos criadores de “Por que nunca fazes o que eu quero?” chegou agora “Por que é que não me ligas?”.
8. “Podes acabar comigo com justa causa, eu aceito.” Termino em grande, com a minha preferida. Afinal, a minha namorada é a própria a assumir-se como uma empregada que eu posso despedir com justa causa: deficiência. Crónica. Nível três.


