terça-feira, 19 de maio de 2015

Barcelona.


Acho que devo começar por dizer que a minha namorada nunca tinha andado de avião. Ainda era recém-chegado ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, e já estava ansioso para ver a reação dela: as caretas que faria, as lágrimas nos olhos, a força com que aprisionaria o meu braço e me diria ao ouvido «estás morto se me fazes andar de avião outra vez».
Passava meia hora das seis da madrugada quando começámos a ouvir o rugido dos motores. Era sinal. Estávamos a arrancar. A velocidade que atingimos após as turbinas iniciarem a sua atuação não foi suficiente para a derrotar… Desilusão, nunca vi ninguém tão calmo a andar de avião pela primeira vez. «Senhores passageiros, querem uma raspadinha?» Não, quero dormir. «Senhores passageiros, iremos agora servir alguns snacks para quem tiver fome!»
Nove e meia da manhã. «Senhores passageiros, pedimos que coloquem os cintos, para iniciarmos a operação de aterragem.» BAM! Chegámos! Nem queria acreditar que estava a pisar solo catalão, para uma viagem alucinante de dois dias onde esperava conhecer Barcelona de uma ponta à outra. Para vos contextualizar, a minha namorada fazia anos. Eu apanhei uma daquelas promoções marotas de uma companhia já por si low-cost, e ofereci-lhe uma viagem a Barcelona… de dois dias. Como seria possível conhecer uma cidade com cerca de oitocentos quilómetros de área e mais de quatro milhões de habitantes em tão pouco tempo?
A manhã foi passada a tentar encontrar o hotel. Decidi-me por um hotel barato… Não aconselho. E prefiro não me prolongar, não vá lembrar-me outra vez de cada vez que tinha de tocar à campainha e dizer “Tomás!” para entrar no prédio que albergava o meu humilde hotel, situado no segundo andar.
O hotel era perto de La Rambla, isto é, uma espécie de Rua de Santa Catarina em Barcelona. Mais movimentada. Mais comprida. Mais larga. Mais tudo. Foi aí que decidimos almoçar: num restaurante de fast-food bastante conhecido, que aproveito para dizer que lá é mais caro. Aliás, tudo lá é mais caro. E foi exatamente depois de almoço que começou a nossa jornada. Quais turistas mais que habituados a estas andanças, sacámos do nosso mapa, com círculos previamente desenhados por nós nos monumentos que queríamos visitar – agora que penso, só nos faltava a meia branca e a sandália. Starbucks. Não podia morrer estúpido, tinha que ir ao Starbucks, nem que fosse para tirar uma foto com a caneca na mão – que tirei. Foi, então, o nosso primeiro destino.
Fomos à Catedral de Barcelona, mas não entrámos porque teríamos de pagar. Também decidimos ir ao Museu da Cera, mas pagava-se. Vimos um bonito Museu Erótico, mas pagava-se. Alguns passos e um flashmob depois, chegámos ao Arc de Triomf. Para surpresa de qualquer visitante, não tínhamos de pagar para passar debaixo daquele monumento! Um dos que mais gostei na cidade espanhola.
Eram quatro da tarde. Já estava farto de andar – ah, sim, esqueci-me de referir que decidimos, devido à nossa bolsa apertada e numa de aventureiros-masoquistas, visitar tudo a pé. Chegámos àquele que diziam ser o ex-libris de Barcelona: arranha-céus? Que é isso à beira da Sagrada Família? Nasciam colunas, cada uma mais alta que a outra, de cada parte daquele templo. Chega a ser mágico de tão imponente! Uma pena não termos entrado, porque se pagava. E muito. Típico.
Entretanto visitámos o Park Guëll, pagámos quinze euros por uma paella e duas sangrias, e ainda tivemos tempo de nos desiludir com a quantidade de pessoas a oferecer droga e cerveja em plena La Rambla.
Mas o melhor chegou no segundo dia. «Têm de visitar a Plaza de España», diziam-nos os nossos amigos. Ok… porque não? E quando chegámos, pagámos um euro para subir um elevador panorâmico de onde víamos a cidade inteira, e aí percebemos: ali sim, era Barcelona. Palácio de Montjuic, soberbo. Estádio Olímpico, magnífico. Arenas de Barcelona, um parque gigante cheio de palmeiras e uma estátua de Gaüdi. O melhor. E atenção, preparem-se… Não pagámos nada! Zero! Nicles! Népia! Do melhor.
E, de repente, senti que não precisava de mais. Não precisava de três dias, nem de uma semana. Dois dias chegaram para conhecer uma das mais belas cidades que já tive o prazer de abraçar. Senti-me cheio, feliz. Não consigo pensar como cliché dizer que a pior parte da viagem foi mesmo o regresso.
Viajar é encher a alma, é refrescar, escrever, apagar e reescrever. Escrevo-vos lavado em lágrimas, embora não visíveis, de saudade daquela que foi, até hoje, uma das viagens da minha vida.
«E muito fica por dizer…» contava eu à minha namorada enquanto escrevia o último ponto final deste texto e ouvia a assistente de bordo dizer: «Senhores passageiros, estamos prestes a aterrar no Porto. Esperamos que tenham gostado da vossa viagem, e que nos acompanhem numa próxima.»


Tomás Garcez

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