Acho que devo começar por dizer que a minha namorada nunca tinha andado de avião. Ainda era recém-chegado ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, e já estava ansioso para ver a reação dela: as caretas que faria, as lágrimas nos olhos, a força com que aprisionaria o meu braço e me diria ao ouvido «estás morto se me fazes andar de avião outra vez».
Passava meia hora das seis
da madrugada quando começámos a ouvir o rugido dos motores. Era sinal.
Estávamos a arrancar. A velocidade que atingimos após as turbinas iniciarem a
sua atuação não foi suficiente para a derrotar… Desilusão, nunca vi ninguém tão
calmo a andar de avião pela primeira vez. «Senhores passageiros, querem uma
raspadinha?» Não, quero dormir. «Senhores passageiros, iremos agora servir alguns
snacks para quem tiver fome!»
Nove e meia da manhã.
«Senhores passageiros, pedimos que coloquem os cintos, para iniciarmos a
operação de aterragem.» BAM! Chegámos! Nem queria acreditar que estava a pisar
solo catalão, para uma viagem alucinante de dois dias onde esperava conhecer
Barcelona de uma ponta à outra. Para vos contextualizar, a minha namorada fazia
anos. Eu apanhei uma daquelas promoções marotas de uma companhia já por si
low-cost, e ofereci-lhe uma viagem a Barcelona… de dois dias. Como seria
possível conhecer uma cidade com cerca de oitocentos quilómetros de área e mais
de quatro milhões de habitantes em tão pouco tempo?
A manhã foi passada a
tentar encontrar o hotel. Decidi-me por um hotel barato… Não aconselho. E
prefiro não me prolongar, não vá lembrar-me outra vez de cada vez que tinha de
tocar à campainha e dizer “Tomás!” para entrar no prédio que albergava o meu
humilde hotel, situado no segundo andar.
O hotel era perto de La
Rambla, isto é, uma espécie de Rua de Santa Catarina em Barcelona. Mais
movimentada. Mais comprida. Mais larga. Mais tudo. Foi aí que decidimos
almoçar: num restaurante de fast-food bastante conhecido, que aproveito para
dizer que lá é mais caro. Aliás, tudo lá é mais caro. E foi exatamente depois
de almoço que começou a nossa jornada. Quais turistas mais que habituados a
estas andanças, sacámos do nosso mapa, com círculos previamente desenhados por
nós nos monumentos que queríamos visitar – agora que penso, só nos faltava a
meia branca e a sandália. Starbucks. Não podia morrer estúpido, tinha que ir ao
Starbucks, nem que fosse para tirar uma foto com a caneca na mão – que tirei.
Foi, então, o nosso primeiro destino.
Fomos à Catedral de
Barcelona, mas não entrámos porque teríamos de pagar. Também decidimos ir ao
Museu da Cera, mas pagava-se. Vimos um bonito Museu Erótico, mas pagava-se.
Alguns passos e um flashmob depois,
chegámos ao Arc de Triomf. Para surpresa de qualquer visitante, não tínhamos de
pagar para passar debaixo daquele monumento! Um dos que mais gostei na cidade
espanhola.
Eram quatro da tarde. Já
estava farto de andar – ah, sim, esqueci-me de referir que decidimos, devido à
nossa bolsa apertada e numa de aventureiros-masoquistas, visitar tudo a pé.
Chegámos àquele que diziam ser o ex-libris de Barcelona: arranha-céus? Que é
isso à beira da Sagrada Família? Nasciam colunas, cada uma mais alta que a
outra, de cada parte daquele templo. Chega a ser mágico de tão imponente! Uma
pena não termos entrado, porque se pagava. E muito. Típico.
Entretanto visitámos o Park
Guëll, pagámos quinze euros por uma paella e duas sangrias, e ainda tivemos
tempo de nos desiludir com a quantidade de pessoas a oferecer droga e cerveja
em plena La Rambla.
Mas o melhor chegou no
segundo dia. «Têm de visitar a Plaza de España», diziam-nos os nossos amigos.
Ok… porque não? E quando chegámos, pagámos um euro para subir um elevador
panorâmico de onde víamos a cidade inteira, e aí percebemos: ali sim, era
Barcelona. Palácio de Montjuic, soberbo. Estádio Olímpico, magnífico. Arenas de
Barcelona, um parque gigante cheio de palmeiras e uma estátua de Gaüdi. O
melhor. E atenção, preparem-se… Não pagámos nada! Zero! Nicles! Népia! Do
melhor.
E, de repente, senti que
não precisava de mais. Não precisava de três dias, nem de uma semana. Dois dias
chegaram para conhecer uma das mais belas cidades que já tive o prazer de
abraçar. Senti-me cheio, feliz. Não consigo pensar como cliché dizer que a pior
parte da viagem foi mesmo o regresso.
Viajar é encher a alma, é
refrescar, escrever, apagar e reescrever. Escrevo-vos lavado em lágrimas,
embora não visíveis, de saudade daquela que foi, até hoje, uma das viagens da
minha vida.
«E muito fica por dizer…»
contava eu à minha namorada enquanto escrevia o último ponto final deste texto
e ouvia a assistente de bordo dizer: «Senhores passageiros, estamos prestes a
aterrar no Porto. Esperamos que tenham gostado da vossa viagem, e que nos
acompanhem numa próxima.»
Tomás Garcez
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