sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Puro.


Ela girava e a saia rodada levantava-se ao sabor do vento. O sol batia-lhe na face e as pálpebras rosadas enchiam-se de uma luz própria, como se carregasse um planeta no olhar. Nada daquilo parecia real, nada parecia findável. Cada frame, cada fotografia tirada por ele, um momento diferente. Eternizado.
Não é que a camisa dela fosse demasiado quente, mas apetecia-lhe que ele a deitasse na relva e rasgasse todos os botões, com a segurança de quem a desejava e, ao mesmo tempo, com a delicadeza de quem a amava.
De facto, parecia cena de filme. A qualquer momento, ouviriam "Corta!" e os pássaros deixariam de cantar, o sol por-se-ia de repente, a magia desapareceria, e cada um tomaria o seu rumo. Mas não. Não foi isso que aconteceu. Deitaram-se na relva. Ela enroscou-se no peito dele, buscando proteção; ele fez-lhe festas no cabelo. Deixaram-se levar pela liberdade, pelo cheiro a natureza e pelo conforto. Na verdade, adormeceram.
Acordaram e lembraram-se: é verdade, nem todo o amor é eterno, nem toda a panela tem o seu testo, não existe A Bela Adormecida na vida real e a paixão também acaba. Mas aquele momento... aquele momento ficaria nas suas memórias para sempre.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Aleatório.

Transpiro vida. Ou, pelo menos, faço por isso. Feliz ou infelizmente, carrego cada experiência que vivo no mais ínfimo pedaço da minha alma; vivo como se fosse imprescindível que o oxigénio chegasse a pulmões de um tamanho que nem possuo; agarro cada oportunidade com a totalidade dos meus poros e, por isso, muitas vezes sinto saudade.
Por vezes, sinto saudade de coisas que ainda nem perdi. Se por um lado sou defensor convicto da filosofia «Carpe Diem», por outro deixo-me levar demasiado por intensidade... Metaforizando, eu sou o balde do poço a ser puxado por duas forças igualmente fortes. Para baixo, para cima, para baixo, para cima, para baixo. Sou inconstante, e isso deixa-me constantemente vazio.
Queria mais. Queria poder acordar todos os dias e sentir-me. Eu não me sinto. Eu sou eu e, por vezes, sou outro. Tenho capas. Tenho sonhos que não quero ter, e falta-me coragem ou talvez me falte vida. Não sei.
O meu cérebro é um ser utópico... Vagueio pela esperança de um mundo justo, tentando passar por entre o podre que é a sociedade. Impossível.
Deito-me na cama. Olho para o teto. Fecho os olhos. Tento dormir. Não consigo. Viro-me. Outra vez. Volto a abrir os olhos. Sento-me na cama. Uma vontade de chorar urge como se de uma tensão pré-menstrual se tratasse. Não sei porquê. Não sei como, nem sei se devo. Não sei o que devo fazer ou pensar, na verdade. Penso, às vezes, que mereço mais e outras que não mereço o que tenho.
Sinto demasiadas vezes que não sei lidar com a vida. Não sei lidar com pessoas, nem com as que gosto nem com as que não gosto. Eu acho que nem sei lidar comigo.
Escrevo completamente aleatoriamente, só quero manifestar aquilo que (não) sinto, mas não pode ser com ninguém. Não confio em ninguém, muito menos a mim, este segredo.
É isso. Faço-me de forte. Controlo as lágrimas. Controlo a vontade de gritar e de pegar nas chaves de casa e sair, de madrugada. Controlo-me para não mostrar a ninguém o quão farto estou.
Peço desculpa. Volto a por a cabeça na almofada e sei lá... acho que adormeço.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Aqueles.

Há coisas e pessoas e momentos que não se esquecem. Por mais voltas que a vida dê, por mais unhas que cresçam e sejam cortadas e voltem a crescer e a ser cortadas, há uma gaveta no interior de cada um que é vitalícia, e que se chama "Aqueles". Aqueles momentos, aquelas pessoas, aquelas palavras, aqueles sentimentos, aquelas lembranças. Não temos como os descrever, são apenas aqueles. Nós sabemos e não precisamos que mais ninguém saiba quais são.
Defino-me como um ser humano que luta consigo mesmo entre o coração de manteiga e a frieza que lhe são ambas características. É difícil compreender para quem está de fora, e é difícil lidar para quem está de dentro. A verdade é que ainda não consegui, na pesagem, descobrir qual das duas é dominante.
É difícil chorar para dentro, lamentar em silêncio por algo ou alguém a quem só consigo mostrar a minha face mais gélida. Mas que o sinto, sinto.
Quem acreditar, dirá que faz parte do meu destino esta dificuldade que tenho em relacionar-me. Não sei. Fico confuso facilmente, se calhar porque me questiono tão frequentemente a mim próprio, e aos outros. Não consigo perceber algumas falhas, e se calhar isso é falha minha.
Vejo a minha forma de viver as minhas amizades como a vida de um pescador. Eu dou-me ao trabalho de ir seis meses para o mar alto. Não me importo de lutar contra ventos, tempestades, fome, saudades de casa. Fico chateado é se no fim desses meses chegar a casa sem peixe.
E isso acontece sempre.

Este texto é especialmente dedicado a vocês, João, Tiago e Constança (nomes fictícios).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Que felicidade?


As pessoas confundem sorrisos com felicidade. E confundem, também, lágrimas com tristeza. Não é que abomine categoricamente estas expressões, mas é-me muito mais fácil, prático e crível acreditar em momentos.
Porquê insistir na busca pela felicidade, porquê ter medo constante da tristeza, quando a vida é apenas um conjunto de ciclos, dos quais podemos fugir mas não nos podemos esconder? Muitas respostas aos problemas que temos estão nas perguntas que colocamos. Ou seja, não deixar que a nossa esperança seja toda depositada num estado de extrema, constante e eterna felicidade é algo que pode parecer difícil para alguns, inalcançável para outros... Para mim é um lema de vida. É o que me faz sentido.
Sonhar e conformar-se podem parecer verbos opostos, mas a verdade é que são dois modos de vida que podem coexistir no mesmo ser humano. Basta ter audácia de viajar no nosso interior.
Viver é apreciar e, ao mesmo tempo, ter a coragem de criar algo que os outros possam também apreciar. Dar sem esperar nada em troca, receber sem sentir obrigação de dar algo em troca, estar em paz consigo e com os outros.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Amanhecer...

Os montes e o silêncio são a paisagem da minha vida. Não apenas literal mas também metaforicamente.
E se antes poderia por em causa a veracidade desta afirmação, depois de sentir na pele o apuro de cada um dos sentidos nesta manhã de primavera passei a tomá-la não só como verdadeira mas como única.
O sol está a abraçar a Serra do Marão como um bebé que abraça a sua mãe... puro, honesto, intenso. A beleza da linha nítida do horizonte atenua a leve brisa que corre num Abril que nada tem de águas mil. O ar confortante e puro de uma região do interior serve de combustível para bandos de pássaros inocentes que voam e cantam Trás-os-Montes.
Passam 30 minutos das 7h da manhã. O sino do Calvário ecoa nos ouvidos de quem, como eu, prefere o cheio do amanhecer ao vazio do adormecer. Não é que o azul dos meus cobertores me cause qualquer tipo de sentimento negativo, mas é inigualável a liberdade e a vida que transmite o verde das árvores, dos montes... o amarelo torrado de um tímido sol que se vai fazendo notar a cada minuto mais e melhor.
Puxei de um cigarro Marlboro para apreciar o conjunto de situações que passam na frente dos meus olhos.
Tenho pena dos senhores que, desde que ainda havia noite cerrada, limpam a rua e disfarçam a poluição que cada rosto deixara na noite passada.
Enquanto isso deixo repousar a cabeça no meu próprio e agradeço por poder estar sentado na varanda, nesta velha e quase desmembrada cadeira de metal, a viver um momento que mais ninguém poderia viver da mesma maneira.
Cheira a sorrisos. E, apesar disso, não é assim que o meu olfato capta a minha vida. É sabendo a pouca vida que tem a minha vida que consigo viver com compromisso a vida que me está a dar este amanhecer.

O cigarro.

Acordo-te e, ainda em jejum,
Te mato.
Porque digo sempre que é só mais um
E, no entanto, não tenho prazer algum
Como naquele momento exato.

O amarelo entre os dedos,
O cheiro a cancro e a morte
Sufocam-me a alma sem medos
E fazem nascer enredos
Que pautam toda a minha sorte.

Os beijos apaixonados numa estrada
Em que perdoo cada facada,
Porque o caminho do amor é mais cedo do que eu.

Inspiro, expiro, puxo, travo
E desfloro a minha vida como um cravo
Que, pétala a pétala, morreu.

Tomás Garcez. 08.04.2014

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014


I found you. You were lost, I was lost and no one knew it.
Sometimes I think about those times and I can't help but cry every time. You made me dream of something that I had never believed in and in what I'll never believe again. I don't know why I became so stupid in love... Maybe I was drunk, maybe it was your wild sexy crazy smile, or maybe I was blind, as I actually am right now. I fuckin' hate you because I don't, you know? Sometimes late at night I want to sleep but instead I keep thinking about our moments together. When you put your head in my shoulders and we just kept staring at people existing. When our hands touched and we were one for a few minutes. I mean, I think about everything. Yeah, maybe I don't seem to, but I am human, and I think about things. Nobody's perfect, right?
I found you. You were lost, I was lost and no one knew it. You found your path, and I? Well, I'm still lost.