Os montes e o silêncio são a paisagem da minha vida. Não apenas literal mas também metaforicamente.
E se antes poderia por em causa a veracidade desta afirmação, depois de sentir na pele o apuro de cada um dos sentidos nesta manhã de primavera passei a tomá-la não só como verdadeira mas como única.
O sol está a abraçar a Serra do Marão como um bebé que abraça a sua mãe... puro, honesto, intenso. A beleza da linha nítida do horizonte atenua a leve brisa que corre num Abril que nada tem de águas mil. O ar confortante e puro de uma região do interior serve de combustível para bandos de pássaros inocentes que voam e cantam Trás-os-Montes.
Passam 30 minutos das 7h da manhã. O sino do Calvário ecoa nos ouvidos de quem, como eu, prefere o cheio do amanhecer ao vazio do adormecer. Não é que o azul dos meus cobertores me cause qualquer tipo de sentimento negativo, mas é inigualável a liberdade e a vida que transmite o verde das árvores, dos montes... o amarelo torrado de um tímido sol que se vai fazendo notar a cada minuto mais e melhor.
Puxei de um cigarro Marlboro para apreciar o conjunto de situações que passam na frente dos meus olhos.
Tenho pena dos senhores que, desde que ainda havia noite cerrada, limpam a rua e disfarçam a poluição que cada rosto deixara na noite passada.
Enquanto isso deixo repousar a cabeça no meu próprio e agradeço por poder estar sentado na varanda, nesta velha e quase desmembrada cadeira de metal, a viver um momento que mais ninguém poderia viver da mesma maneira.
Cheira a sorrisos. E, apesar disso, não é assim que o meu olfato capta a minha vida. É sabendo a pouca vida que tem a minha vida que consigo viver com compromisso a vida que me está a dar este amanhecer.
terça-feira, 15 de abril de 2014
O cigarro.
Acordo-te e, ainda em jejum,
Te mato.
Porque digo sempre que é só mais um
E, no entanto, não tenho prazer algum
Como naquele momento exato.
O amarelo entre os dedos,
O cheiro a cancro e a morte
Sufocam-me a alma sem medos
E fazem nascer enredos
Que pautam toda a minha sorte.
Os beijos apaixonados numa estrada
Em que perdoo cada facada,
Porque o caminho do amor é mais cedo do que eu.
Inspiro, expiro, puxo, travo
E desfloro a minha vida como um cravo
Que, pétala a pétala, morreu.
Tomás Garcez. 08.04.2014
Subscrever:
Comentários (Atom)